14/7/06
Divulgação de ONGs e projetos sociais
Mídia deve ser mais criteriosa em relação ao trabalho das ONGs
A cena é comum nas organizações não-governamentais de maior destaque: um jornalista liga afirmando ter uma pauta sobre um aspecto relacionado à área social e pede ao assessor de imprensa que lhe indique um caso exemplar, escolhido entre seus beneficiários.
Em seguida, a equipe de reportagem chega apressada ao local devidamente preparado pela ONG e, em poucos minutos, entrevista a pessoa que lhe é indicada, usando-o para demonstrar o tema abordado pela matéria. Se o tempo permitir, conversa também com um representante da organização, que assim fortalece sua imagem.
A questão é que, na correria do jornalismo atual, a apuração dos fatos acaba ficando em segundo plano e a sociedade perde a oportunidade de saber se aquela organização não-governamental vem contribuindo de forma realmente relevante para o desenvolvimento da sociedade.
Em grande parte das vezes, faltam dados que comprovem a eficácia do trabalho da ONG entrevistada, além informações sobre suas fontes de recursos, critérios de investimento e outros detalhes relevantes. Faltam, principalmente, dados que questionem, ampliem ou mesmo contradigam o que foi dito – como a opinião de outros atores sociais, por exemplo.
Pode-se observar ainda que, em geral, as organizações escolhidas para as matérias não passam de um punhado, embora o Brasil conte com mais de 270 mil fundações e associações sem fins lucrativos – segundo estudo divulgado, em dezembro de 2004, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife).
Assim, as grandes organizações, vistas como fontes prioritárias para determinados temas, dominam o noticiário, enquanto pequenas e médias organizações que desenvolvem trabalhos sérios e inovadores continuam sem voz e visibilidade. Repete-se, no que diz respeito às organizações da sociedade civil, o que acontece no mundo empresarial: os grandes ocupam espaços cada vez maiores, mas os pequenos raramente conseguem algum destaque.
A diferença é que as empresas contam com a possibilidade de investir seu próprio capital para garantir espaço na mídia, produzindo campanhas publicitárias milionárias. Já às ONGs – principalmente às desprovidas de influência nos meios de comunicação – resta esperar que a mídia comece a exercer mais plenamente sua responsabilidade social, divulgando a existência de projetos alternativos e promovendo um debate mais amplo sobre os temas abordados.
Cristina Sales é Mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela FGV/CPDOC. Publicitária, pós-graduada em Marketing e em Gestão de ONGs, atua há mais de 15 anos em projetos de comunicação e marketing.
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