Cresce no país – usando principalmente a Internet – uma campanha para que os eleitores anulem seu voto. Inicialmente, pode parecer uma idéia tentadora, mas, na verdade, não passa de mais uma cilada para a democracia. Afinal, a título de expressar indignação com a situação caótica em que se encontra o país, assolado por quadrilhas de políticos corruptos, defende-se a idéia desmobilizadora de que o melhor é desperdiçar a possibilidade de exercermos nossa cidadania.
Talvez até fizesse algum sentido votar nulo, se essa atitude indicasse uma nova consciência política, capaz de fazer com que, após a eleição, cada cidadão passasse a atuar por meio dos canais democráticos ao seu alcance, como associações de bairro, sindicatos, partidos, ONGs, etc., a fim de mudar a situação vigente. Mas sabemos que, historicamente, este não tem sido o comportamento observado pela maioria. Então, a campanha pelo voto nulo não passa de um arremedo de atitude consciente que, no fundo, vai significar apenas um “eu não tenho nada a ver com isso que esta aí”.
Esquecidos de todas as lutas que antecederam a conquista do nosso direito de voto e de todos aqueles que morreram defendendo-o, preferimos o caminho mais fácil: o da crítica passiva, o da indignação inútil, o do voto nulo, que, segundo a nossa Constituição, não tem o poder de invalidar uma eleição.
Descontentes com os candidatos disponíveis, esquecemos que somos responsáveis por sua presença nos cargos que ocupam. Afinal, somos nós que os elegemos. Assim, cabe-nos, agora, escolher entre todos os candidatos (e não só entre os dois que aparecem no topo das pesquisas) aqueles que julgarmos melhores. Ou optarmos por dar nosso voto aos pequenos partidos, tentando favorecer um futuro equilíbrio de forças, fundamental para o exercício democrático.
Divulgados os resultados, temos que nos preparar para fiscalizar os atos dos eleitos – sejam eles quem forem – exigindo que cumpram o que prometeram e respondendo às suas recusas com mobilização e não com passividade.
É claro que tudo isso dá muito trabalho. Assim, preferimos simplesmente lavar as mãos e deixar para os demais a responsabilidade de escolher, condenando-os pela má escolha feita. Só que o ônus recai sobre todos nós, enquanto a cidadania, tal e qual esfinge voluntariosa, continua a nos apresentar seu desafio: ‘exerce-me ou devoro-te!’.
Cristina Sales é mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela FGF/CPDOC. Publicitária, pós-graduada em Marketing e em Gestão de Organizações do Terceiro Setor.