8/5/07
Cidadania na hora de consumir
A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS DEPENDE DE VOCÊ*
Um grande número de brasileiros espera que as empresas se envolvam diretamente na solução de problemas sociais como criminalidade, pobreza e baixo nível educacional. Esta expectativa foi declarada por 88% das pessoas entrevistadas pela pesquisa “Responsabilidade Social das Empresas – Percepção do Consumidor Brasileiro/ 2005”, divulgada pelos institutos Ethos e Akatu e pela Market Analysis.
Apesar disto, sabe-se que muitas empresas limitam sua “responsabilidade” a um discurso bonito ou ao desenvolvimento de projetos sociais totalmente desvinculados de suas estratégias de negócios. Entre os motivos que colaboram para que isto aconteça, está o fato de que um dos mais importantes atores sociais (o cidadão-consumidor) não vem exercendo plenamente o seu papel.
Se uma empresa explora funcionários, lança mão de práticas desonestas, polui o meio-ambiente, veicula propaganda enganosa e, ainda assim, obtém lucros, é um sinal de que as pessoas utilizam seus produtos ou serviços sem dar importância ao impacto negativo gerado. Note-se que, na pesquisa citada, apenas 15% dos entrevistados declararam já ter punido uma empresa por não concordar com suas práticas.
Embora o objetivo primordial de um empreendimento comercial seja lucrar, não podemos admitir que esta lucratividade se sustente na geração de altos custos para a sociedade, ocasionando prejuízos para o meio ambiente, o desenvolvimento social e até para os valores morais. Portanto, ao optar por um produto ou serviço, o cidadão deve lembrar que tem nas mãos a possibilidade de punir as empresas que não atuam corretamente.
Ao contrário do que se vem apregoando, não existem empresas-cidadãs: cidadania é uma prerrogativa dos indivíduos. Por isso, uma atuação individual responsável é fundamental para garantir a chamada responsabilidade social corporativa. Se os dirigentes e funcionários das empresas não atuam de forma ética e se os demais cidadãos não assumem o papel disciplinador, tal responsabilidade permanece no plano da retórica.
O ato de consumir, se realizado de forma consciente, pode transformar-se em ato político no sentido amplo, ou seja, de ação em favor do bem comum. Assim, o consumidor que se nega a interagir com empresas oportunistas ajuda a melhorar a sociedade em que vive.
Aqui, entra em cena um fator de extrema importância: a informação. Para que se possa escolher apropriadamente, é preciso saber o máximo possível sobre a empresa: se ela enfrenta processos na justiça ou em órgãos como o CONAR (conselho que controla abusos na propaganda); se está envolvida em escândalos ou é alvo dos protestos de funcionários, ONGs etc.
Da mesma forma que é imprescindível fiscalizar os políticos que elegemos, temos que conhecer o que ocorre no mundo corporativo e tentar interferir neste ambiente protestando, boicotando ou agindo juridicamente, quando couber.
As empresas são as grandes potências dos dias de hoje, movimentando mais recursos que muitos países. Mas cidadãos ativos são capazes de provocar transformações. E se queremos uma sociedade mais justa, precisamos assumir a nossa parte neste desafio. Como diz a frase atribuída a Gandhi: “seja a mudança que você quer ver no mundo”.
Cristina Sales é mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais, pós-graduada em Marketing e em Administração de Organizações do Terceiro Setor.
*Este artigo foi publicado originalmente na Revista OCAS número 50.
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